Black is Beautiful

Em 1969, viajei aos Estados Unidos com o grupo do Augusto Boal para encenar Arena Conta Bolívar e Arena Conta Zumbi. Ficamos três meses na estrada. Fomos também ao México e ao Peru. Eu tinha comprado uma peruca lisa chanel e representava com ela. Quando nos apresentamos no Harlem, um grupo de militantes negros ficou chocado com o fato de eu usar peruca. Era o auge do black is beautiful, e a gente tinha que manter as características originais da raça. O Boal ainda me defendeu, disse que eu era engajada e tudo o mais.

Nesse dia, voltei para o hotel, tomei um banho demorado e deixei meu cabelo voltar ao natural. É que, além da peruca, eu fazia alisamento com pente quente. Ali eu comecei a me aceitar como negra. Saía nas ruas do Harlem e reparava que os negros americanos andavam de cabeça erguida. Não tinha essa postura subserviente que eu sentia no Brasil e em mim mesma. Essa viagem teve essa importância de fazer com que eu enxergasse meu país de fora.

No grupo de atores estavam o Lima Duarte, a Isabel Ribeiro, o Hélio Ary, o Renato Consorte, o Fernando Peixoto e eu. A gente se apresentava em espaços alternativos, universidades, centros acadêmicos. As críticas eram as melhores possíveis. O New York Times rasgou elogios à minha voz e à minha atuação. Aproveitei para visitar Carmem Costa em New Jersey e dei uma canja no seu show. Cheguei a receber proposta para ficar lá cantando, mas recusei. Preferi voltar ao Brasil. E cheguei pensando: Agora ninguém me segura!

Zezé Motta Arena Conta Bolívar e Arena Conta Zumbi