Depoimento de Zezé Motta no MIS é destaque na coluna Gente Boa, do Jornal O Globo

Jornal O Globo - Gente Boa

Aos 70 anos, e com 50 de carreira, Zezé Motta falou por quase quatro horas em seu depoimento para a posteridade, dias atrás, no Museu da Imagem e do Som. Preconceito, sucesso e a transformação em sex symbol por causa de “Xica da Silva” foram alguns dos assuntos abordados. Leia a seguir alguns trechos da conversa.

Embranquecimento

“Passei por esse processo nos anos 60. Usava peruca lisa, pensava em operar o nariz, diminuir a bunda, e em usar lentes de contato verdes. Queria ser aceita.”

Bullying do público

“Quando fiz par com Marcos Paulo em ‘Corpo a corpo’, do Gilberto (Braga), cheguei a ouvir comentários do tipo: ‘Se eu fosse ele, lavaria a boca depois de beijar essa mulher horrorosa’. Mas foi importante. Negro nunca tinha família nas novelas.”

Uma noite de terror em “Roda Viva”

“Extremistas de direita invadiram o teatro, em São Paulo. A Marília (Pêra) adora a história da minha peruca chanel, que voou esse dia, no meio da confusão (risos). Invadiram os camarins. Só levei umas cacetadas de leve. Hoje, a gente ri. Mas foi brabo. Eu namorava o (Antônio) Pitanga… Era virgem, e ele teve a maior paciência.”

“Xica da Silva”
“Virei símbolo sexual e era louco. Os homens confundiam a pessoa com a personagem, então eu não podia decepcionar ninguém. Com isso, ficava mais na performance e menos no meu prazer (risos).”

Comunidade 

“Lucélia Santos, Marco Nanini, eu e Wolf Maia morávamos num apartamento na Fonte da Saudade. Lucélia queria tanto morar com a gente que deu um jeito de ficar com o quarto de empregada. À noite, todo mundo ia parar na cama dela para fumar um baseado (risos)”.

Decepção

“Pensei em pedir para sair de minha última novela. Era para eu fazer uma empregada que batalharia para que o filho virasse diplomata. E não rolou. Eu fiquei abrindo porta, servindo cafezinho. Quase entrei em depressão.”

(Fotos: Marcos Ramos)