Homenagem a Zezé Motta – história de vida e louvor – Por Lélia Gonzalez (texto escrito por volta de 1984)

Zezé Motta


Todos a conhecemos como a atriz promissora que despontou em “Roda Viva”, sob a direção de José Celso Martinez; que se afirmou em “Arena canta Zumbi”, dirigida por Boal, ou na novela “Beto Rockfeller”. Todos sabemos que atingiu o estrelato, arrebatando público e crítica, com sua magnífica interpretação em “Xica da Silva”, de Carlos Diegues, a ponto de os críticos de Chicago, há poucos meses atrás terem comentado: “Basta de Evita! Agora queremos Xica.”E quem desconhece aquela voz quente e aveludada, mas às vezes zombeteira e cortante como faca amolada, que mexe com a gente quando canta: “Senhora Liberdade”, “Cais Escuro”, “Rita Baiana”, “Oxum” e tantas outras músicas mais? Mas muitos poucos de nós a conhecemos como aquela criança que, vinda de Campos com os pais e o irmão, morou no morro do Pavãozinho e estudou em colégio interno para crianças pobres. Ou como a adolescente que ajudava a mãe na costura, ouvindo rádio o dia inteiro, e que, depois, cantava as músicas ouvidas para o pai, a fim de que este as transformasse em partituras a serem distribuídas entre os membros do conjunto de músicos profissionais que dirigia.

Poucos sabem que essa mesma adolescente começou a tomar consciência da situação dos deserdados e oprimidos, pobres e negros como ela própria, quando fez o ginasial no Colégio João XXIII, na Cruzada de São Sebastião. Mas nada disso a fazia desistir. Ao entrar para o segundo grau (curso de contabilidade), foi trabalhar como operária, ao mesmo tempo em que estudava teatro com Maria Clara Machado. Vida dura de jovem negra pobre, numa sociedade onde os espaços reservados para mulheres, negros e pobres são aqueles da exclusão. Poucos, muito poucos, sabem que sua arte também está a serviço das crianças pobres e órfãs, numa atuação marcada pela discrição e pela solidariedade. Por outro lado, a consciência política de Maria José Motta levou-a a participar ativamente das lutas por uma sociedade justa e igualitária. Militante do Movimento Negro Unificado, sua conduta se caracteriza pela coragem com que tem denunciado o racismo e suas práticas; e, ultrapassando o nível da denúncia, aí está Zezé organizando um arquivo de atores negros para que no futuro, não se repitam as escamoteações e os silêncios com relação a esses mesmos atores. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, empenhou-se na campanha Lélia Gonzalez, companheira de MNU, para que as maiorias silenciadas (mulheres e negros) se fizessem representar na Câmara Federal. Para além da leveza, da doçura, do bom humor de Zezé, encontra-se uma mulher extraordinária, temperada por muita luta e sofrimento, generosa enquanto companheira, filha, irmã, esposa, amiga. Para além da imagem, da estrela Zezé Motta, o que vamos encontrar, na verdade, é uma mulher MULHER.

* referência ao CIDAN – Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro – http://www.cidan.org.br/Fundado em 1984 pela atriz Zezé Motta, o CIDAN visa a promoção e a inserção dos artistas negros – atores, músicos cantores, bailarinos, modelos e técnicos em espetáculo – no mercado de trabalho. Visite o site – em Português, Inglês e Francês. Prestigie e divulgue este trabalho pioneiro.