Movimento Negro

Sou uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, no início dos anos 70, e desde então, houve alguns avanços, embora a gente tenha muita luta pela frente. Sou do tempo que em novela tinha apenas dois ou três atores negros, que faziam sempre papéis subalternos. O problema não era fazer empregados, mas é que esses personagens viviam a reboque. Essa era a questão, não tinham uma história própria, estavam a serviço de outros personagens. Então, se a gente faz uma comparação, vamos ver que houve avanços, mas ainda somos poucos em muitos departamentos.

Há questões no Brasil que não funcionam por erros básicos. A começar pela legislação, que é falha. Quando sai uma lei a favor dos negros, fica todo mundo dizendo que é paternalismo, mas esquecem onde estão os negros: nas prisões, nas favelas, morando em encostas. Na verdade, o erro vem desde a abolição, quando abriram as portas das senzalas sem ter um programa para que essas pessoas tivessem uma vida digna. Os negros, então, ficaram sem casa, comida e cultura. Uma coisa perversa.

O Brasil tem uma dívida com as populações negra e indígena e as cotas podem minimizar esses erros históricos. Vejo a questão das cotas como uma medida provisória. Se esse negro que for beneficiado tiver uma boa preparação ele não vai precisar de cotas para o seu filho.

Estamos no mês da Consciência Negra! Uma coisa importante é esta questão de que não é um problema apenas de negros, mas de amarelos e brancos etc. também. Esta não é mais uma preocupação apenas dos negros. Temos muitos aliados brancos conscientes de que tem mudar esta mentalidade. Hoje os produtores estão preocupados em fazer famílias inteiras negras. Antigamente os personagens negros não tinham pai nem mãe e viviam a reboque dos outros personagens. Ter consciência é refletir sobre isto. Este mês é para reflexão. E também para se questionar. Me lembro de ter visto uma matéria que perguntava “qual a cor do seu racismo?” Se cada um parar para refletir a realidade do negro verá que não é apenas esta de que ele veio da África como escravo porque lá eles eram filhos de reis e rainhas. Se pararmos para pensar, o negro está em todos os lugares, seja na culinária, na música ou no esporte.

Zezé Motta