Não temos mais tempo para lamúrias…

A Lélia Gonzalez foi uma pessoa muito importante na minha formação. Ela era antropóloga, professora universitária, e quando eu soube que ia ter esse curso, me matriculei. Na época da Xica, eu dava média de três entrevistas por dia, e as pessoas sempre perguntavam sobre ser atriz, mulher e negra. Senti que eu precisava aprimorar o meu discurso. Nisso, a Lélia me ajudou. Lembro que na aula inaugural ela disse: Não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo. Até então só tinha feito parte do MNU (Movimento Negro Unificado). Ia ao Clube Renascença, em Vila Isabel, para dançar soul music. Era um clube freqüentado por negros, que agora voltou a ser revitalizado. O Moacyr Luz organiza umas rodas de samba às segundas-feiras. Vive lotado.

Mesmo lá esbarrava em preconceito. Nessa época estava casada com o Marcos Palma, um arquiteto branco, e os radicais achavam que negro só podia namorar negro. Imagina, isso nunca entrou na minha cabeça. Namorei brancos e pretos não porque fossem brancos ou pretos, e sim porque eram pessoas interessantes. Imagina se Zózimo Bulbul era preto ou branco! Zózimo Bulbul era Zózimo Bulbul!

Zezé Motta