Não temos mais tempo para lamúrias…

A Lélia Gonzalez foi uma pessoa muito importante na minha formação. Ela era antropóloga, professora universitária, e quando eu soube que ia ter esse curso, me matriculei. Na época da Xica, eu dava média de três entrevistas por dia, e as pessoas sempre perguntavam sobre ser atriz, mulher e negra. Senti que eu precisava aprimorar o meu discurso. Nisso, a Lélia me ajudou. Lembro que na aula inaugural ela disse: Não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo. Até então só tinha feito parte do MNU (Movimento Negro Unificado). Ia ao Clube Renascença, em Vila Isabel, para dançar soul music. Era um clube freqüentado por negros, que agora voltou a ser revitalizado. O Moacyr Luz organiza umas rodas de samba às segundas-feiras. Vive lotado.

Mesmo lá esbarrava em preconceito. Nessa época estava casada com o Marcos Palma, um arquiteto branco, e os radicais achavam que negro só podia namorar negro. Imagina, isso nunca entrou na minha cabeça. Namorei brancos e pretos não porque fossem brancos ou pretos, e sim porque eram pessoas interessantes. Imagina se Zózimo Bulbul era preto ou branco! Zózimo Bulbul era Zózimo Bulbul!

Zezé Motta

23.06.2013


Já fiz cinco filmes com Cacá – Xica da Silva, Quilombo, Dias Melhores Virão, Tieta, Orfeu – e no que depender de mim faço mais

Já fiz cinco filmes com Cacá – Xica da Silva, Quilombo, Dias Melhores Virão, Tieta, Orfeu – e no que depender de mim faço mais. Adoro trabalhar com ele. Quando ele me chamou para o Quilombo, achei que tinha enlouquecido de vez. Aquela mulher, Dandara, não podia ser feita por mim. Ela não sorria nunca, só guerreava. Eu não imaginei que fosse capaz de fazer um filme inteiro sem sorrir. Quilombo reconta um momento riquíssimo da história do Brasil, sob o ponto de vista dos vencidos. Pelos documentos oficiais de Portugal, os habitantes de Palmares eram considerados bandidos. O filme mostra que os negros sempre lutaram pela sobrevivência, não estavam acomodados à espera de um redentor. Ir para Cannes representando o filme com a equipe foi uma emoção à parte. Antônio Pompeo, Antônio Pitanga, Tony Tornado, Daniel Filho, Cacá, Lauro Escorel. O filme foi ovacionado na sessão de gala e nós saímos aos prantos da sala de projeção.

Zezé Motta e Antônio Pitanga - Quilombo

Zezé Motta em Quilombo

23.06.2013


Eu estava numa fase de militância mais radical

Antes mesmo do meu primeiro LP ficar pronto em 1978, fiz um show no Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, que depois seguiu carreira no Teatro Ipanema, com ótima repercussão de público e crítica. Serviu para mostrar que eu tinha talento como cantora e que não estava querendo pegar carona no sucesso do Xica da Silva para me promover. Dividi o palco com o Mar Revolto, um grupo que o Guilherme Araújo conhecia da Bahia e trouxe ao Rio para trabalhar comigo. As gravadoras ficaram de olho e nós fechamos com a Warner. Fiquei lá quatro anos e gravei três LPs. Desde o começo, a Warner queria que eu gravasse samba. Mas eu não queria ser rotulada de sambista. Nada contra, mas eu queria ser livre para cantar vários gêneros. E era também uma atitude política por perceber que queriam me pregar esse rótulo pelo fato de eu ser negra.

Eu estava numa fase de militância mais radical Eu estava numa fase de militância mais radical e criei essa resistência. Mas para o segundo LP, que foi o Negritude, realmente me convenceram de que eu estava vendendo abaixo do esperado e que seria interessante tentar o caminho sugerido por eles. Aí já era uma questão de mercado, eu não podia botar a militante à frente da artista e topei fazer um disco de sambas. Então foi a vez da gravadora promover uma feijoada na casa do Sérgio Amaral para o pessoal dosamba. Compareceram: Martinho da Vila, Monarco, Padeirinho, João Bosco, Manacéa, Wilson Moreira, Ney Lopes. Uma turma de bambas.

Agora, estou novamente arregimentando um time de bambas para gravar meu novo disco.

Já cantei com gente do melhor gabarito. Só pelo Projeto Pixinguinha, fiz dois shows maravilhosos. Um, dividindo o palco com Johnny Alf, outro com Marina e Luiz Melodia. Quando Marina e eu cantávamos Mania de Você (Meu bem / vocême dá / água na boca), da Rita Lee, dávamos um selinho e o público vinha abaixo. Viajamos três meses pelas principais capitais do País. Em Salvador, lotamos o Teatro Castro Alves, tivemos que fazer sessão extra.

Zezé Motta com Sérgio Cabral

23.06.2013


Em Corpo a Corpo: o relacionamento inter-racial

Não foi só em Supermanoela e Transas e Caretas que eu namorei o galã. Em Corpo a Corpo, que foi uma novela revolucionária, o Gilberto Braga tocou em vários temas tabus, entre eles, o do relacionamento inter-racial. O casal formado pelo Marcos Paulo e por mim causou um rebuliço danado.

Os telespectadores que participavam dos grupos de discussão da novela achincalhavam. Vinham com as visões mais preconceituosas. Uma nordestina dizia que mudava de canal porque não podia acreditar que um gato como o Marcos Paulo pudesse ser apaixonado por uma mulher horrorosa. Outro achava que o Marcos Paulo devia estar precisando muito de dinheiro para se humilhar a esse ponto. Aí eu lembrava da Lélia Gonzales, que eu conheci num curso de cultura negra no Parque Lage, dizendo que não se pode sofrer com esses comentários e que é preciso manter a cabeça erguida. Porque ficar de vítima reclamando é muito fácil. Fácil, chato e contraproducente.

A Lélia foi uma pessoa muito importante na minha formação. Ela era antropóloga, professora universitária, e quando eu soube que ia ter esse curso, me matriculei. Na época da Xica, eu dava média de três entrevistas por dia, e as pessoas sempre perguntavam sobre ser atriz, mulher e negra. Senti que eu precisava aprimorar o meu discurso. Nisso, a Lélia me ajudou. Lembro que na aula inaugural ela disse: Não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo.

Marcos Paulo e Zezé Motta - Corpo a Corpo

Marcos Paulo e Zezé Motta – Corpo a Corpo

23.06.2013


Crioula, de Moraes Moreira….

Ao Moraes eu pedi uma música para cantar e ele fez para mim o Crioula.

Não posso reclamar da vida, né?

Zezé Motta

Zezé Motta

Zezé Motta canta “Crioula” (Moraes Moreira) no Fantástico de 1977.

Quando eu penso nela
Em forma de canção
Imagino em som
Que revele que revele o tom
Que revele o tom, o tom da cor
Da sua pele

Crioula
Crioula
Crioula

 

23.06.2013


Quando terminei Xica, recebi um convite para ir à Globo. Cheguei lá e vi que era para servir doces…

Zezé Motta - Um Varão Entre as Mulheres

Quando terminei Xica da Silva, recebi um convite para ir à Globo pegar o roteiro do Caso Especial Festa de Aniversário, adaptado da obra de Clarice Lispector. Fiquei eufórica porque eu adoro a Clarice. Achei que estavam me convidando para um papel incrível. Só que quando eu cheguei lá, vi que era para servir doces. Uma figuração. Fiquei muito indignada e disse: Não, obrigada. Então o Ziembinski, que era diretor do programa, me ligou, preocupado, e me aconselhou que eu não fechasse essa porta. Que no Brasil os atores precisam da TV e que, apesar do fato de Xica da Silva ter sido um sucesso, a vida continuava. Ele não falou por maldade. Fez para me proteger.

Só que na época eu estava tão determinada que mantive minha posição: Empregadas, nunca mais! Aí a imprensa alardeou, os diretores pararam de me convidar e eu fiquei um tempo sem fazer televisão. Quer dizer, sem fazer teledramaturgia. Porque a TV-E abriu espaço para eu ser apresentadora. Fiquei lá um tempo e fiz um programa chamado Calendário, que era uma espécie de revista jornalística.

Anos depois, quando fui convidada para fazer Transas e Caretas, do Lauro César Muniz, e aceitei, as pessoas me cobraram: Ué, você não disse que não topava mais papel de empregada? Acontece que a Dorinha fazia parte da trama. Era faxineira de dois irmãos – Reginaldo Faria e José Wilker – e tinha caso com ambos. Quer dizer, o problema não era ser empregada. O problema era entrar muda e sair calada. Isso eu já tinha feito e não precisava mais.

Fiz tantas empregadas na minha vida que quando fui enredo da escola de samba Arrastão de Cascadura, do grupo 1-B, com o enredo Zezé, um Canto de Amor à Raça, do carnavalesco João de Deus, havia uma ala só de domésticas, representando as empregadas que eu fiz ao longo da minha carreira.

23.06.2013