Quando terminei Xica, recebi um convite para ir à Globo. Cheguei lá e vi que era para servir doces…

Zezé Motta - Um Varão Entre as Mulheres

Quando terminei Xica da Silva, recebi um convite para ir à Globo pegar o roteiro do Caso Especial Festa de Aniversário, adaptado da obra de Clarice Lispector. Fiquei eufórica porque eu adoro a Clarice. Achei que estavam me convidando para um papel incrível. Só que quando eu cheguei lá, vi que era para servir doces. Uma figuração. Fiquei muito indignada e disse: Não, obrigada. Então o Ziembinski, que era diretor do programa, me ligou, preocupado, e me aconselhou que eu não fechasse essa porta. Que no Brasil os atores precisam da TV e que, apesar do fato de Xica da Silva ter sido um sucesso, a vida continuava. Ele não falou por maldade. Fez para me proteger.

Só que na época eu estava tão determinada que mantive minha posição: Empregadas, nunca mais! Aí a imprensa alardeou, os diretores pararam de me convidar e eu fiquei um tempo sem fazer televisão. Quer dizer, sem fazer teledramaturgia. Porque a TV-E abriu espaço para eu ser apresentadora. Fiquei lá um tempo e fiz um programa chamado Calendário, que era uma espécie de revista jornalística.

Anos depois, quando fui convidada para fazer Transas e Caretas, do Lauro César Muniz, e aceitei, as pessoas me cobraram: Ué, você não disse que não topava mais papel de empregada? Acontece que a Dorinha fazia parte da trama. Era faxineira de dois irmãos – Reginaldo Faria e José Wilker – e tinha caso com ambos. Quer dizer, o problema não era ser empregada. O problema era entrar muda e sair calada. Isso eu já tinha feito e não precisava mais.

Fiz tantas empregadas na minha vida que quando fui enredo da escola de samba Arrastão de Cascadura, do grupo 1-B, com o enredo Zezé, um Canto de Amor à Raça, do carnavalesco João de Deus, havia uma ala só de domésticas, representando as empregadas que eu fiz ao longo da minha carreira.