Zezé Motta em entrevista para Tititi

Zezé Motta
Irresistível ouvir Zezé Motta contando suas incríveis experiências. Aos 71 anos, sendo meio século de vida artística, a estrela viveu intensamente momentos importantes da história do teatro, do cinema e da  TV. E marcado ainda pelas lutas contra o racismo e liberdade das mulheres.
Fluminense, de Campos dos Goytacazes,  Zezé estreou profissionalmente nos palcos em 1967, na peça Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda. Na telinha fez Supermanoela (1974), Corpo a Corpo (1984), Kananga do Japão (Manchete, 1989), Xica da Silva (Manchete, 1996) e Rebelde (Record, 2011), entre outras novelas. No cinema, explodiu como protagonista de Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, e que a consagrou internacionalmente.
A intérprete é reservada ao falar da vida pessoal, mas foi casada algumas vezes e tem sete filhos adotivos. “Criei três meninas órfãs e três sobrinhas. E tem um menino, que o “clube da Luluzinha” lá de casa não deixou entrar na história… Mas eu o considero como filho e estamos sempre juntos”, contou sem entrar em detalhes. Zezé logo voltará à telinha na pele de Tia Joaquina, em Escrava Mãe, da Record, que já está inteira gravada e deve estrear até julho. Confira nossa entrevista com a grande e querida diva!
TITITI – Você estudou teatro em O Tablado, no Rio, nos anos 1960. Como tudo começou?
Zezé Motta – Consegui uma bolsa de estudos por intermédio da Cruzada São Sebastião, que era uma entidade ligada à Igreja Católica, e estava levando jovens para fazer curso lá. Fui e deu certo.
Uma jovem negra, frequentando curso de teatro na zona sul do Rio era raridade, não?
Sim, só consegui graças a essa bolsa, mas me encontrei. E foi pintando um papel aqui, outro ali, e assim estreei profissionalmente em RodaViva.
E entrar na TV foi difícil?
Não, porque sempre tive grandes amigos na televisão. A saudosa Marília Pêra, por exemplo, estava começando comigo, sempre me indicava para um trabalho ou outro, e assim eu ia ficando.
São 50 anos de estrada, muitas novelas, filmes, espetáculos… Dá pra citar um mais marcante?
Ah, são vários… No cinema, foi Xica da Silva. Na TV, Corpo a Corpo, novela na qual  fazia par com Marcos Paulo (falecido em 2012). Foi fantástico atuar com ele! E no teatro, nossa, adorei Sete, o Musical (2007). Sempre faço personagens generosos, do bem. E de repente fui convidada a interpretar Carmem, uma pessoa má, horrorosa, que torturava as mocinhas vividas por Alessandra Maestrini e Alessandra Verney. Foi muito curioso porque a peça me tirava da zona de conforto. E fez um sucesso estrondoso no Rio e em São Paulo. No começo, achava que não conseguiria interpretá-la.
E como conseguiu?
Quando tenho um volume de texto muito grande para decorar, contrato uma pessoa para estudar comigo. E estava fazendo esse trabalho com o Buruca (Luiz Carlos Buruca, ator e diretor que morreu em 2012). O próprio Charles Möeller, autor do espetáculo, disse que não me via no papel de uma mulher má comum e me mandou fazê-la irônica. Saí arrasada do ensaio… Que atriz é essa que só sabe fazer a boazinha e sorrir o tempo inteiro? Falei para o Buruca que precisava conseguir. Ensaiei três dias seguidos, sem descanso, e consegui!
E na música, o que marcou mais nesse meio século?
Ah, já homenageei Caetano Veloso, Elizeth Cardoso, Luiz Melodia… Mas se for pra destacar um trabalho acho que é o  primeiro show: Muito Prazer, Zezé. Ali consegui realizar meu grande sonho: ser cantriz! Ouvi essa expressão do Tárik de Souza (jornalista e crítico de música) e sempre que preencho uma ficha, escrevo isso como profissão. Nos meus shows, convido meu lado atriz a participar.
Como surgiu a vertente cantora?
Do meu pai, que era professor de violão. Na minha casa, sempre teve música. Foi ele quem me descobriu cantora. Costumava ouvir rádio com a minha mãe e quando ele chegava ia contar sobre o que ouvi e cantava pra ele. Costumo dizer que, se me levassem para um canto e me exigissem escolher ser cantora ou atriz, escolheria a música. Mas enquanto isso não acontece, fico com os dois (risos).
Você pensa que lhe faltaram personagens importantes?
Sempre tive a humildade de viver qualquer papel. Aceito o que vier de bom grado. É claro que se aparecer ‘o’ papel a gente fica feliz, mas sei aproveitar o que a vida me dá.
Foi assim com Xica da Silva, no cinema?
Foi! Fiz os testes e fiquei quase um mês sofrendo para saber se seria escolhida ou não. Quando fui, quase não acreditei.
Outra marca forte na sua carreira é a sensualidade. Como lida com isso?
O Nelson Motta (compositor, escritor, produtor…), que é meu compadre, costuma dizer: “Não precisa mandar a Zezé tirar a roupa. É só ela ouvir o barulho da claquete que já tira” (risos). As coisas foram acontecendo. Sempre lidei com a nudez na arte de forma natural. Se fosse preciso tirar, eu tirava.
Conta um pouco sobre a Tia Joaquina de  Escrava Mãe?
Ela é a mentora da Juliana (Gabriela Moreyra), a protagonista. Cuidou dela desde o nascimento, e também é quem narra a história. Na verdade, é uma escrava de dentro da casa-grande, a mais velha do engenho, e todos a chamam de tia. Até as sinhazinhas que criou.
Por que você aceitou o convite para a novela?
Por vários motivos. Um deles é trabalhar de novo com o diretor  Ivan Zettel. Já fizemos juntos Luz do Sol (Record, 2007) e Rebelde.
Como é seu relacionamento  com os jovens atores?
Muito bom. Tenho percebido que alguns deles se emocionam por contracenar comigo. Outros ficam um pouco tensos, nervosos… Até com medo! Mas aí sempre que contraceno com alguém mais jovem, meu lado maternal aflora com força total.
Como foi atuar com  Taís Araújo em Xica da Silva, na qual ela começou?
Quando fui fazer a mãe da Xica, as pessoas falavam: “Quando ela virar rainha (como ela interpretou na telona), você vai ficar com ciúme!” Mas assim que teve a virada, que a Xica da Taís se casou com o contratador,  eu já estava totalmente envolvida com ela. Já tinha adotado a Taís, já estávamos amigas.
Não ficou um clima de rivalidade por você já ter feito a personagem no cinema? 
Algumas pessoas tentaram fazer a gente bater de frente, mas isso nunca aconteceu. Pelo contrário, eu sempre cobri a Taís de elogios. E as críticas que ela recebeu na época foram injustas porque só seguiu o que o diretor da trama, Walter Avancini  (que morreu em 2001), pedia. O ator experiente nunca sabe tudo, ele também aprende. Há uma troca. O dia em que a gente achar que sabe tudo vira um artista mediocre!