Zezé Motta na casa de Xica da Silva, em Diamantina:

Zezé Motta na casa de Xica da Silva, em Diamantina | Foto: Pedro Mirana

Zezé Motta na casa de Xica da Silva, em Diamantina | Foto: Pedro Mirana

40 anos depois ter vivido o papel de Xica da Silva, do diretor Cacá Diegues, gravado em Diamantina (MG), Zezé Motta, atualmente no ar em “O Outro Lado do Paraíso” de Walcyr Carrasco, na Globo, retornou a casa que viveu a escrava mais famosa da história do Brasil, na Praça Jouberte Guerra, 266, Centro História de Diamantina. Muito emocionada, Zezé fez questão de registrar este momento, pois foi lá que gravou as principais cenas do filme que projetou o cinema brasileiro em mais de 16 países, no de 1976, e que a tornou símbolo sexual até meados dos anos 80, além de consolidar sua carreira internacional, que lhe rendeu o Troféu Oscarito – destinado a grandes atores do cinema brasileiro -, por sua majestosa atuação no longa. Zezé foi ovacionada pelas ruas de Diamantina, pois lá, não só Xica da Silva, mas a atriz também é exaltada.

O personagem também lhe rendeu inúmeros prêmios e homenagens, entre elas, uma foto exposta no Moma, em Nova York, e entrar para a memória do Museu do Festival de Cinema de Gramado (RS), através de uma estátua de cera. A estátua de Zezé foi feita nos mesmos moldes das Estátuas produzidas para o DREAMLAND – primeiro museu de cera da América Latina.

Zezé diz:

“Passei Natal, réveillon e carnaval em Diamantina. Junto com a Elke, Stephan, e grande parte do elenco, morei por meses na cidade. A equipe tinha alguns dias de folga e o Cacá liberava para que todos passassem esses dias em casa, menos eu. Ele achava que eu iria me dispersar, perder o tom. Então, fiquei todo o tempo sem me afastar das locações, concentrada só no personagem. Ele percebeu que eu tinha dificuldade de lidar com a minha agressividade. E para Xica eu precisava liberar essa carga emotiva que a gente, em geral, põe pra dentro, engole. Então, em alguns momentos, o Cacá usou de pequenas torturas. Na cena da igreja, por exemplo, a que eu fiz no teste e que é exemplar na luta da Xica contra o preconceito que impede alguém de entrar num templo que deveria ser de todos.  Estava muito quente, era uma externa; eu fazia, fazia, repetia e não dava a raiva que o Cacá queria. Aí eu pedia um copo d´água, ele falava: Daqui a pouco; pedia café e ele: Já vem. Depois eu soube que foi uma atitude calculada para me irritar. Funcionou! Ele estava sempre de olho. Uma noite, passou e me viu jogando carta com alguém da equipe. Disse: É, a cena de manhã não é fácil, não! Na mesma hora, parei o jogo, corri para o quarto e fui estudar a cena. Era assim que a coisa funcionava.  Na cena em que a Xica se despede do João Fernandes, ele disse: Zezé, eu não faço questão de lágrimas. Ganhei todos os prêmios: Air France, Festival de Brasília, festivais internacionais. Viajei muito por causa do filme. Fiz, inclusive, shows nos Estados Unidos, onde eles punham no cartaz: Show com Zezé Motta, atriz do filme Xica da Silva. Quando o filme estourou, eu estava fazendo uma comédia com a Eva Todor, Rendez-Vous, no Teatro Maison de France. Era um papel minúsculo. De empregada, claro. Tirava o pó dos móveis e provocava o patrão, naquela tradição de mucama que dá mole pro senhor. Entrava muda, saía calada. Antes do filme, as pessoas iam ao teatro para ver a Eva. Depois, passaram a ir para me ver também. A Eva, então, aumentou meu nome no cartaz. Adorei trabalhar com ela. Aprendi muito. Aí as pessoas me perguntavam: E agora, Zezé? E eu respondia: Agora eu quero cantar!” diz Zezé Motta.